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quinta-feira, 28 de julho de 2011

Américas antes de Colombo - Parte 15: comparando incas e astecas

Comparando incas e astecas
Tanto o império inca quanto o asteca eram baseados em longos desenvolvimentos de civilização que os precederam. Enquanto em algumas áreas de realizações artísticas e intelectuais povos anteriores os ultrapassaram, ambos representaram o sucesso da organização imperial e militar. Ambos eram baseados na agricultura intensiva organizada por um estado que acumulava o excedente de produção e então controlava a circulação dos bens e sua redistribuição aos grupos ou classes sociais. Em ambos os estados antigas instituições em parte baseadas em parentesco, o ayllu e o calpulli, foram sendo transformadas pelo surgimento de uma hierarquia social na qual a nobreza era cada vez mais predominante. Em ambas as áreas esta nobreza também era o corpo de funcionários do estado, de forma que a organização estatal era quase uma imagem da sociedade.
Enquanto os incas tentaram criar um estado político dominante e fizeram tentativas para integrar o império como uma unidade (os astecas fizeram menos quanto a isso), ambos os impérios reconheciam os grupos étnicos e os líderes políticos locais e se dispunham a permitir uma variação considerável de um grupo ou região para outra – isto é, desde que a soberania inca ou asteca fosse reconhecida e o tributo pago. Tanto astecas quanto incas, como os espanhóis depois deles, descobriram que seu poderio militar foi menos efetivo contra os povos nômades que viviam em suas florestas. Essencialmente, os impérios foram criados pela conquista de povos agrícolas sedentários e pela extração de tributo e trabalho desses povos.
Não se podem negligenciar as diferenças consideráveis entre a Mesoamérica e a região andina em termos de clima e geografia nem ignorar as diferenças entre as civilizações inca e asteca. O comércio e os mercados, por exemplo, eram bem mais desenvolvidos em geral no Império Asteca e até mesmo antes na Mesoamérica que no mundo andino. Havia diferenças consideráveis na metalurgia, nos sistemas de escrita, na definição social e na hierarquia. Mas dentro do contexto das civilizações mundiais, provavelmente é bem melhor ver estes dois impérios e as áreas culturais que eles representaram como variações de padrões e processos similares dos quais a agricultura sedentária é o mais importante. A variação de similaridades básicas subjacentes também pode ser vista nos sistemas de crenças e cosmologia e na estrutura social. Se origens similares, contatos diretos ou indiretos entre as áreas ou o desenvolvimento paralelo na Mesoamérica e nos Andes explicam a similaridade, são fatos a serem explorados. Mas as civilizações nativas americanas compartilharam muito entre si, e o fator adicional de seus isolamentos relativos em relação a culturas externas e influências biológicas deu-lhes suas naturezas peculiares e em última análise suas vulnerabilidades. Ao mesmo tempo, a habilidade para sobreviver ao choque da conquista e a contribuição para a formação de sociedades após a conquista demonstra muito de suas resiliência e resistência. Muito tempo depois dos impérios inca e asteca terem deixado de existir, os povos dos Andes e do México continuam a recorrer a estas tradições culturais.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Américas antes de Colombo - Parte 9: Tenochtitlán

A fundação do paraíso: Tenochtitlán, a grande cidade
A cidade-estado com seu governante porta-voz era um conceito básico do México central e se aplicava a Tenochtitlán, a capital asteca. Os mexicas se consideravam herdeiros das tradições toltecas e de suas cidades, como a nova Tula. Começando modestamente, Tenochtitlán se tornou uma grande metrópole, com uma zona central de palácios e templos pintados de branco rodeados por bairros residenciais de tijolos de argila, pequenos palácios e mercados. A área do templo era dominada pela grande pirâmide e pelos templos idênticos de Huizilopochtli e Tlaloc (este recentemente escavado pelos arqueólogos). O templo redondo de Quetzalcoatl, a escola para o sacerdócio e uns setenta outros edifícios estavam dentro ou próximos da área. A arte e a arquitetura eram excelentes. Hernán Cortés, o conquistador espanhol que viu a cidade, relatou pessoalmente: “As construções de pedra e de madeira são igualmente boas, não poderiam ser melhoradas em nenhum lugar”. Havia jardins e um zoológico mantido pelo governante. A nobreza tinha casas de dois andares, às vezes com jardins nas coberturas.
Tlatelolco, inicialmente uma cidade separada em outra ilha, foi finalmente incorporada como parte de Tenochtitlán. Ela também tinha templos e palácios impressionantes, e seu grande mercado permaneceu sendo o lugar mais importante de comércio e trocas. Os projetos de construção de vários governantes mexicas aumentaram o tamanho e a beleza da cidade. Em 1519, a cidade cobria perto de 13 km². Ela tinha uma população de 150.000 pessoas, maior do que as de cidades contemporâneas europeias como Sevilha ou Paris.
A localização da ilha deu a Tenochtitlán um caráter peculiar. Posicionada no centro de um lago, a cidade era ligada às margens por quatro amplas trilhas elevadas. Como a cidade estava construída sobre uma ilha e sobre aterros, ela era cruzada por canais que permitiam o tráfego constante de canoas e o acesso ao lago. Longe do centro da cidade, as famílias cultivavam jardins flutuantes, ou chinampas. Cada uma das mais de 60 divisões da cidade era controlada por um calpulli, ou grupo familiar, e cada um mantinha seus templos de vizinhança e edifícios cívicos. A cidade era abastecida principalmente por transporte por canoas, embora houvesse aquedutos que traziam água fresca. Um dique foi construído para manter as águas salobras da porção leste do lago longe da cidade e da zona agrícola. Havia pequenas comunidades em ilhas e, ao longo das margens do lago, havia outras vilas e cidades densamente povoadas. O êxito estrutural era impressionante.
Um soldado de infantaria espanhol que viu a cidade em 1519 escreveu:
 
“Vendo paisagens tão maravilhosas, não sabíamos o que dizer. Será que o que
apareceu diante de nós era real? Por um lado, na terra, havia grandes cidades, e no
lago muito mais, e o lago estava apinhado de canoas, e na estrada elevada havia
muitas pontes em intervalos, e na nossa frente se erguia a grande cidade do México.”
 
Descrições tão realistas de observadores ocidentais relatam apenas uma porção da história. Tenochtitlán tinha uma organização interna que reproduzia o universo religioso e social asteca. Suas quatro estradas elevadas estavam associadas com as quatro direções cardeais e com os deuses de cada uma delas. Dentro da cidade, os bairros estavam organizados em pares de 20 grupos corporativos comunais e em vários agrupamentos de manutenção, cada um com seu templo comunitário e sua escola para manter. O ciclo de festivais, o calendário e a cosmologia da religião asteca eram representados fisicamente pela organização da cidade e pelo lugar e hierarquia dos grupos corporativos dentro dela. Tais agrupamentos eram baseados em ocupações, residência ou etnia. Este último agrupamento era importante porque Tenochtitlán e os próprios astecas incluíam grandes populações étnicas não astecas até mesmo em suas origens. Na verdade, a maior parte do mito asteca e da história oficial era desenhada para criar um povo unificado fora de uma aglomeração de grupos.
Tenochtitlán era o coração de um império e cobrava tributo e apoio de seus aliados e dependentes, mas em teoria ela era apenas uma cidade-estado governada por um líder, exatamente como as outras 50 ou mais cidades-estado do planalto central. Mesmo assim, os astecas a chamavam de “fundação do paraíso”, a base de seu poder. Ela foi uma grande cidade mundial, mas diferente de Roma ou Atenas, Tenochtitlán foi depois tão completamente obliterada que, mesmo durante a vida de seus conquistadores, um deles lamentou que “tudo está derrubado e perdido, nada restou de pé”. A atual Cidade do México localiza-se no lugar da antiga capital asteca.

Alimentando o povo: a economia do império
A alimentação da grande população de Tenochtitlán e da confederação asteca em geral dependia das formas tradicionais de agricultura e das inovações desenvolvidas pelos astecas. As terras dos povos conquistados eram frequentemente desapropriadas, e comida era às vezes demandada como tributo. De fato, as quantidades de milho, feijão e de outros alimentos trazidos para Tenochtitlán anualmente eram descomunais. No lago e em volta dele, no entanto, os astecas adotaram um engenhoso sistema de agricultura irrigada pela construção de chinampas para cultivo. Havia canteiros de ervas aquáticas, lodo e terra que eram colocados em armações feitas de varas fixadas no fundo do lago. Eles formavam ilhas flutuantes artificiais de cerca de 5 metros de comprimento e de 30 a 100 metros de largura. Esta construção estreita permitia que a água alcançasse todas as plantas, e salgueiros também eram plantados em intervalos para fornecer sombra e ajudar a fixar as raízes. A maior parte do terreno de Tenochtitlán era originalmente chinampa, e na extremidade sul do lago, mais de 20.000 acres de chinampas foram construídas.
O rendimento da agricultura chinampa era alto e quatro safras de milho por ano eram possíveis. Aparentemente, este sistema de agricultura irrigada era usado no período pré-clássico, mas um aumento no nível dos lagos impossibilitou sua continuidade. Após 1200, todavia, a diminuição dos níveis dos lagos novamente estimulou a construção de chinampas, com os astecas realizando-as em larga escala. Eles também construíram diques para separar as águas potáveis nas partes sul e oeste do lago das águas salobras das outras partes. Atualmente, os cultivos flutuantes de Xochimilco representam os vestígios da agricultura do lago.
A produção dos camponeses astecas e os tributos forneciam os alimentos básicos. Em cada comunidade asteca, o clã local partilhava as terras, parte das quais eram separadas para o sustento dos templos e do estado. Além disso, alguns nobres podiam também ter propriedades privadas que eram trabalhadas por servos ou escravos dos povos conquistados. Cada comunidade tinha comercializações periódicas – de acordo com vários ciclos no sistema de calendários, como a cada cinco e treze dias – onde uma ampla variedade de bens era trocada. Sementes de cacau e pó de ouro eram às vezes usados como moeda, mas a maior parte do comércio era feita por escambo. O grande mercado em Tlatelolco operava diariamente e era controlado por uma classe mercantil especial, ou pochteca, que era especializada no comércio de longa distância de itens luxuosos tais como plumas de aves tropicais e cacau. Os mercados eram altamente regulamentados e estavam sob o controle de inspetores e juízes especiais. Apesar da existência e da importância dos mercados, esta não era uma economia de mercado da forma que nós conhecemos.
O estado controlava o uso e a distribuição de muitas commodities e servia para redistribuir as vastas levas de tributos recebidas dos povos subjugados. Os níveis de tributos eram determinados pela forma que os povos foram subjugados: se aceitaram o domínio asteca ou se tinham lutado contra esse domínio. Aqueles que haviam se rendido pagavam menos. Os tributos pagos eram vários: alimento, escravos, vítimas sacrificiais e uma ampla variedade de commodities. Por exemplo, mais de 120.000 mantas de tecido de algodão eram coletadas como tributo a cada ano e enviadas a Tenochtitlán. O estado asteca redistribuía estes bens. Após as conquistas, a nobreza era recompensada abundantemente, mas os plebeus recebiam bem menos. A redistribuição de muitos bens pelo estado interferia no funcionamento normal do mercado e criava uma peculiar economia mista controlada pelo estado.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Américas antes de Colombo - Parte 8: astecas - sociedade, religião e ideologia de conquista

O contrato social asteca
De acordo com as considerações astecas dessa história, uma transformação social e política também aconteceu. Acampichtli, o primeiro governante, criou uma nobreza, ou pipiltin, a partir das principais famílias por casamento com alguns nobres de Culhuacán que podiam traçar suas origens aos toltecas. Quando a guerra com Azcapotzalco estourou, os plebeus relutaram em lutar; mas a nobreza os encorajou e prometeu vitória. De acordo com a versão asteca oficial, os pipiltin prometeram obediência aos plebeus para sempre se eles perdessem, e os plebeus fizeram promessa similar se os nobres conseguissem a vitória. A conquista de Azcapotzalco assegurou a posição da nobreza. Além disso, o governante de Tenochtitlán emergiu desse processo não mais como um porta-voz de um conselho geral, mas como um governante supremo com amplos poderes. Os governantes seguintes expandiram o poder e as fronteiras do controle asteca. Moctezuma I (1440-1469) conquistou áreas em torno do platô central. Sob seu irmão Ahuitzotl (1486-1502), o império alcançou sua maior extensão – de costa a costa e com algumas áreas sujeitadas bem ao sul, embora o reino tarascano a noroeste permanecesse independente. Moctezuma II (1502-1520) consolidou a conquista do México central e, embora alguns poucos estados independentes permanecessem dentro do México central, a dominação asteca se estendia da fronteira tarascana até a região maia. Os povos subjugados eram forçados a pagar tributo, entregar terras e, às vezes, prestar serviço militar ao crescente Império Asteca.
Qualquer que seja a explanação oficial dos eventos, parece claro que a sociedade asteca foi transformada no processo de expansão e conquista. A partir de uma associação de clãs pouco rígida, os mexicas se tornaram uma sociedade estratificada sob a autoridade de um governante supremo de grande poder. Uma figura central nestas mudanças foi Tlacaelel, um homem que serviu como um tipo de primeiro-ministro e conselheiro sob três governantes de 1427 até a sua morte por volta de 1480. Sob sua direção, as histórias foram reescritas e aos mexicas foi dada uma autoimagem como um povo escolhido para servir os deuses. O sacrifício humano, há muito tempo parte da religião mesoamericana, foi consideravelmente expandido sob sua direção em um culto de enormes proporções no qual a classe militar desempenhava uma função central como fornecedores de cativos de guerra para serem usados como vítimas de sacrifício. Supostamente, à dedicação do grande templo durante o reinado de Ahuitzotl, mais de 10.000 vítimas foram sacrificadas. Também era uma política de Tlacaelel deixar alguns territórios inconquistados, de forma que periódicas guerras fossem organizadas nas quais ambos os lados poderiam obter cativos para sacrifício. Qualquer que fosse a motivação religiosa para esse culto, Tlacaelel e os governantes astecas os manipulavam como um recurso efetivo de terror político. Na época de Moctezuma II, o estado asteca era dominado por um rei que representava o poder civil e que servia como um representante dos deuses na Terra. O culto do sacrifício humano e da conquista estava unido ao poder político do governante e da nobreza.

Religião e a ideologia de conquista
A religião asteca incorporava muitas características que há muito faziam parte do sistema de crenças mesoamericano. A religião era uma força poderosa, unificadora e às vezes opressiva na qual pouca distinção era feita entre o mundo dos deuses e o mundo natural. As deidades tradicionais da Mesoamérica – os deuses da chuva, do fogo, da água, do milho, do céu e do sol, muitos dos quais eram cultuados desde a época de Teotihuacán – eram conhecidos e venerados entre os astecas.
Havia pelo menos 128 deidades importantes, mas o número de deuses, na prática, parecia incontável porque muitas vezes cada deidade tinha uma consorte de forma feminina. Isto se deve ao fato de que uma dualidade básica era reconhecida em todas as coisas. Além disso, os deuses podiam ter diferentes formas ou manifestações de certa forma como os avatares das deidades hindus. Frequentemente cada deus tinha pelo menos cinco aspectos, cada um associado com as direções cardeais e com o centro. Pensava-se que certos deuses como sendo os patronos de cidades específicas, grupos étnicos ou ocupações. Era um panteão abrangente sustentado por um ciclo de festivais anuais e um cerimonial altamente complexo que envolvia várias formas de banquetes e danças junto com penitência e sacrifício.
Esta confusa disposição de deuses pode ser organizada em três temas ou cultos principais. O primeiro era dos deuses da fertilidade e do ciclo agrícola, como Tlaloc, ou o deus da chuva (chamado de Chac pelos maias) e os deuses e deusas da água, do milho e da fertilidade. Xipe Totec, por exemplo, representava a ressurreição agrícola. Seu culto era horrível. As vítimas sacrificadas a ele era esfoladas, e um sacerdote então vestia a pele para representar o novo crescimento do milho. Um segundo tema centralizado nas deidades criadoras, os grandes deuses e deusas que trouxeram o universo à existência. A história de suas ações desempenhava um papel central na cosmografia asteca. Tonatiuh, o deus guerreiro do sul, e Tezcatlipoca, o deus do céu noturno, estavam entre os deuses mais poderosos e respeitados pelos povos do México central. A maior parte do pensamento abstrato e filosófico asteca era devotada ao tema da criação. Finalmente, o culto da guerra e do sacrifício construído sobre as tradições mesoamericanas preexistentes que tinha sido expandido desde a época tolteca, mas que, sob o estado militarista asteca, tornou-se o culto do estado. Huitzilopochtli, o patrono tribal asteca, tornou-se a figura central desse culto, mas ele também incluía Tezcatlipoca, Tonatiuh e outros deuses.
Os astecas reverenciavam as grandes deidades tradicionais – tais como Tlaloc e Quetzalcoatl, o antigo deus da civilização – tão sagradas para os toltecas, mas sua própria deidade tribal, Huitzilopochtli, tornou-se suprema. Os astecas o identificavam com o antigo deus do sol, e o viam como um guerreiro do céu do dia lutando para dar vida e calor ao mundo contra as forças da noite. A fim de realizar essa luta, o sol precisava de força – e assim como os deuses se sacrificavam pela humanidade, a nutrição que os deuses mais precisavam era o que havia de mais precioso: a vida humana em forma de corações e sangue. O grande templo de Tenochtitlán era dedicado a Huitzilopochtli e Tlaloc. A deidade tribal dos astecas e o antigo deus agrícola dos povos sedentários da Mesoamérica foram assim unidos.
Na verdade, enquanto o sacrifício humano há muito fazia parte da religião mesoamericana, ele se expandiu consideravelmente no período pós-clássico do militarismo. Os cultos guerreiros e as imagens militaristas de jaguares e águias devorando corações humanos eram característicos da arte tolteca. Os astecas simplesmente adotaram uma tendência existente e a levaram a uma escala sem precedentes. Os tipos e a frequência dos sacrifícios aumentaram, e um simbolismo amplo e religioso, que incluía canibalismo ritual, desenvolveu-se como parte do culto. Quanto do sacrifício asteca resultava de convicção religiosa e quanto era imposto como tática de terror e controle político pelos governantes e pela classe sacerdotal é uma questão ainda aberta a debate.
Sob a superfície desse politeísmo, também havia, no entanto, um senso de unidade espiritual. Nezhualcoyotl, o rei de Texcoco, compôs hinos ao “senhor das imediações”, uma força criativa invisível que apoiava todos os deuses. Apesar disso, sua concepção de um tipo de monoteísmo, muito semelhante ao do faraó Akhenaton no Egito, era muito abstrata e nunca conquistou grande popularidade.
Apesar dos aspectos sanguinários da religião asteca terem bastante atenção, pode-se também perceber que os astecas se interessavam com muitas das grandes questões religiosas e espirituais que preocupavam outras civilizações: Há vida depois da morte? Qual o significado da vida? O que significa viver uma vida boa? Os deuses realmente existem?
Nezhualcoyotl, cuja poesia sobreviveu na forma oral e foi escrita no século XVI, desejava saber sobre a vida após a morte:
         "As flores vão para a terra dos mortos?
         No além, estamos mortos ou ainda vivemos?
         Onde está a fonte de luz, visto que ela esconde o que dá a vida?"
Ele também queria saber sobre a existência dos deuses:
         "Você é real, você existe?
         Apenas você domina todas as coisas
         O doador da vida.
         Isso é verdade?
         Talvez, como dizem, não seja verdade."
A arte e a poesia religiosa astecas são repletas de imagens de flores, pássaros e de música – todos muito admirados pelos astecas – assim como de corações humanos e sangue – a “água preciosa” necessária para sustentar os deuses. É essa mistura de imagens que faz o simbolismo da religião asteca de tão difícil entendimento para os observadores modernos.
A religião asteca dependia de uma mitologia complexa que explicava o nascimento e a história dos deuses e suas relações com as pessoas e de um simbolismo religioso que infundia todos os aspectos da vida. Como já visto, o sistema de calendário mesoamericano era religioso em natureza, e muitas cerimônias coincidiam com pontos particulares no calendário cíclico. Além disso, os astecas também acreditavam em uma visão cíclica da história e que o mundo tinha sido destruído quatro vezes antes e que seria destruído novamente. Assim, havia certo fatalismo no pensamento asteca e uma premonição que, finalmente, os sacrifícios seriam insuficientes e os deuses trariam outra vez catástrofes. Caracteristicamente, no final de cada ciclo de 52 anos, todas as chamas e fogueiras no reino eram apagadas, e enquanto as pessoas esperavam apreensivamente, os sacerdotes tentavam acender uma nova fogueira na cavidade torácica de uma vítima sacrificial. Se os deuses aprovassem e o fogo acendesse, o mundo continuaria; o novo fogo era então levado por corredores com tochas para reacender todas as fogueiras no reino.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Américas antes de Colombo - Parte 7: ascensão asteca


A ascensão asteca ao poder
O Império Tolteca durou até cerca de 1150, quando foi aparentemente destruído por invasores nômades vindos do norte e que também parecem ter saqueado Tula em torno da mesma data. No período após a queda de Tula, o centro do poder populacional e político no México central se transferiu para o vale do México e principalmente para as margens da grande cadeia de lagos naquela bacia. Os três grandes lagos eram ligados por pântanos; juntos, eles forneciam um rico ambiente aquático. Enquanto os lagos orientais tendiam a ser salgados por causa dos minerais que os rios próximos neles despejavam, os do sul e do oeste continham água fresca. As margens dos lagos eram salpicadas de assentamentos e vilas. Uma densa população vivia em torno desses lagos para tirar proveito de suas águas vivificantes para a agricultura, dos peixes, plantas e animais aquáticos e das vantagens para o transporte. Dos aproximadamente 7.800 km² da bacia no vale, cerca de 1.040 km² estavam debaixo d’água.
Os lagos se tornaram o centro cultural e populacional do México no período pós-clássico. No instável mundo da Mesoamérica pós-toltecas, vários povos e cidades manobravam pela supremacia sobre os lagos e pelas vantagens que eles ofereciam. Os vencedores dessa disputa, os astecas, com o tempo construíram um grande império, mas quando eles surgiram na cena histórica, eram os mais improváveis candidatos ao poder.
A partir de suas origens obscuras, a ascensão asteca (ou, como eles chamavam a si próprios, mexica) ao poder e a formação de um estado imperial foi tão espetacular quanto rápido. De acordo com algumas de suas lendas, os mexicas antes habitavam o vale central e conheciam a agricultura e a vida “civilizada”, mas então viviam no exílio, no norte, num lugar chamado Aztlan (do qual deriva o nome asteca). Isto deve ser um exagero pelo desejo de reivindicar uma herança distinta. Outras fontes indicam que os astecas eram simplesmente umas das tribos nômades que usaram a anarquia política, após a queda dos toltecas, para penetrar na área habitada pelos povos agrícolas sedentários. Como os antigos egípcios, os astecas reescreveram a história de forma que se adaptasse aos seus propósitos. Seu governante Itzcóatl (1427-1440) ordenou que todos os livros antigos fossem destruídos e a história fosse reescrita de uma maneira mais favorável à versão “oficial” asteca. Observadores posteriores, espanhóis e indígenas, escreveram com seus pontos de vista próprios. Dessa forma, é difícil juntar as partes da história e eliminar parcialidades intencionais, manipulações políticas e reescritos posteriores, mas com a ajuda da arqueologia e da etnohistória, ou o uso de técnicas antropológicas pelos historiadores, é possível esquematizar as principais características da vida e da história asteca.
O que parece claro é que os astecas eram um grupo de cerca de 10.000 pessoas que migrou para as margens do lago Texcoco no vale central do México por volta de 1325. Após a queda do Império Tolteca, o vale central era habitado por uma mistura de povos – migrantes chichimecas do noroeste e vários grupos de agricultores sedentários. Estes povos estavam divididos em pequenas unidades políticas que reclamavam autoridades maiores ou menores com base em seus poderios militares e suas conexões com a cultura tolteca ou com descendentes toltecas. Muitos desses povos falavam nahuatl, a língua que os toltecas falavam. Os astecas também falavam essa língua, um fato que fez sua ascensão ao poder e suas eventuais reivindicações por legitimidade mais aceitáveis.
Neste período, a área em volta do lago era dominada por várias tribos organizadas em cidades-estado. A cidade de Azcapotzalco era o poder verdadeiro, mas era desafiada por uma aliança centralizada na cidade de Texcoco. Outra cidade, Culhuacán, que fizera parte do Império Tolteca, usava sua herança como herdeira legítima dos toltecas como um meio de criar alianças através do casamento de seus príncipes e princesas com estados mais poderosos, porém menos eminentes. Este era um mundo de manobras políticas e casamentos de estado, potências concorrentes e alianças mutáveis.
Um grupo intrusivo e militante, como os astecas, era desacreditado e malvisto pelos poderes dominantes da região, mas suas habilidades em combate poderiam ser aproveitadas, e isto os tornava atrativos como mercenários ou aliados. Por cerca de um século, os astecas vagaram em torno das margens do lago, recebendo permissão para se estabelecer por um tempo até serem expulsos por vizinhos mais poderosos. Uma aliança com Culhuacán fracassou quando em vez de organizar um casamento real com uma princesa a eles enviada por essa cidade, os astecas a executaram como uma oferenda aos seus deuses.
Em um período de militarismo e guerras, os astecas tinham a reputação de guerreiros tenazes e seguidores fanáticos de seus deuses, a quem eles ofereciam sacrifícios humanos contínuos. Esta reputação fez deles valorosos e temidos. Suas próprias lendas profetizavam que suas andanças terminariam quando eles avistassem uma águia empoleirada sobre um cacto com uma serpente em seu bico. Supostamente, este sinal foi visto em uma ilha pantanosa no lago Texcoco e nessa ilha e em uma próxima, os astecas se estabeleceram. A cidade de Tenochtitlán foi fundada por volta de 1325 e, na ilha vizinha, a cidade de Tlatelolco foi estabelecida imediatamente depois. As duas cidades com o tempo cresceram juntas, embora mantivessem administrações separadas.
A partir desta base segura, os astecas começaram a exercer uma função mais ativa na política regional. Azcapotzalco e Texcoco estavam em guerra e os astecas começaram a servir a primeira como mercenários. Esta aliança trouxe prosperidade aos astecas, especialmente para seus governantes e para sua nobreza guerreira, que agora estava recebendo terras e tributos das vilas conquistadas. Todavia, por volta de 1428, os astecas se rebelaram contra Azcapotzalco e se uniram a Texcoco, destruindo a cidade de seus antigos aliados. A partir dessa vitória, os astecas surgiram como um poder independente. Em 1434, Tenochtitlán, Texcoco e uma cidade menor, Tlacopán, juntaram-se em uma tríplice aliança que exercia controle sobre a maior parte do platô central. Nezhualcoyotl, o rei filósofo de Texcoco (1434-1472), usava seu prestígio pessoal e sabedoria política para manter certo equilíbrio na aliança, mas na realidade, Tenochtitlán e os astecas dominavam seus aliados e controlavam a maior parcela dos tributos e das terras tomadas.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Tradições do solstício de verão

Para muitas das antigas civilizações o solstício de verão – o dia mais longo do ano – era visto com grande importância. As pessoas celebravam este dia especial, que cai em junho no hemisfério norte, com festivais, comemorações e outras práticas, algumas das quais ainda sobrevivem ou experimentam uma retomada nos tempos modernos.
Egípcios antigos – o solstício de verão era particularmente importante para os antigos egípcios porque coincidia com o começo da estação da cheia do Nilo. Acreditava-se que nesta época a deusa Isis derramava lágrimas de luto pela morte de seu marido Osíris, causando a elevação do rio e a fertilização do vale do Nilo. Festivais eram realizados em honra a ambas as divindades e celebrava fertilidade e abundância.

Gregos antigos – de acordo com certas variações do calendário grego – eles diferiam amplamente por região e época – o solstício de verão era o primeiro dia do ano. Vários festivais eram organizados por volta dessa época, incluindo o Cronia, que celebrava o deus da agricultura Cronos. O rigoroso código social era temporariamente suspenso durante o Cronia, com os escravos participando das festividades em igualdade ou até mesmo sendo servidos por seus senhores. O solstício de verão também marcava o início da contagem regressiva de um mês para o início dos jogos olímpicos.

Romanos antigos – nos dias que precediam o solstício de verão, os antigos romanos celebravam o festival de Vestália, que pagava tributo a Vesta, a deusa da família. Os rituais incluíam o sacrifício de um bezerro não nascido removido do útero de sua mãe. Esta era a única época do ano em que era permitido às mulheres casadas entrar no templo sagrado das virgens vestais e lá fazer suas oferendas.

Chineses antigos – Os antigos chineses participavam de uma cerimônia no solstício de verão em homenagem à terra, à feminilidade e à força conhecida como yin. Ela complementava o ritual de solstício de inverno, que era devotado ao paraíso, à masculinidade e ao yang.

Antigas tribos da Europa central e do norte – Muitos germânicos, eslavos e celtas pagãos saudavam o verão com fogueiras, uma tradição que ainda é apreciada na Alemanha, Áustria, Estônia e outros países. Algumas tribos antigas praticavam um ritual no qual casais pulavam as chamas para adivinhar o quanto as safras daquele ano iriam crescer.

Vikings – o início do verão era uma época crítica do ano para os navegantes nórdicos, que se encontravam para discutir assuntos legais e resolver disputas nos dias em torno do solstício de verão. Eles também visitavam poços que acreditavam ter poderes de cura e construíam grandes fogueiras. Hoje, as celebrações “vikings” do solstício de verão são populares entre residentes e turistas da Islândia.

Nativos americanos – muitas tribos nativas americanas participavam há vários séculos dos rituais do solstício de verão, alguns dos quais ainda praticados hoje em dia. Os sioux, por exemplo, executavam uma dança do sol cerimonial em volta de uma árvore vestindo cores simbólicas. Alguns estudiosos acreditam que a roda medicinal de Big Horn em Wyoming, um arranjo de pedras construído há várias centenas de anos pelos índios das planícies, alinha-se com o nascer e o por do sol do solstício, e era então o lugar da dança do sol anual daquela cultura.

Maias e astecas – enquanto não se sabe muito de como exatamente as poderosas civilizações pré-colombianas da América Central celebravam o solstício de verão, as ruínas de suas outrora grandes cidades indicam a grande importância desse dia. Templos, edifícios públicos e outras estruturas estavam amiúde precisamente alinhados com as sombras lançadas pelos principais fenômenos astrológicos, particularmente os solstícios de verão e inverno.

Druidas – os grandes sacerdotes celtas conhecidos como druidas provavelmente conduziam celebrações rituais durante o solstício de verão, mas – ao contrário da crença popular – é improvável que estas acontecessem em Stonehenge, o mais famoso círculo de pedra megalítico da Inglaterra. Apesar disso, pessoas que se identificam como druidas modernos continuam a se reunir no monumento para os solstícios de verão e de inverno e para os equinócios de primavera e outono.