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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Como a agricultura quase destruiu a civilização humana antiga (How Farming Almost Destroyed Ancient Human Civilization) - por Annalee Newitz


Há cerca de 9.000 anos, os humanos haviam dominado a agricultura até o ponto onde a comida era abundante. Populações cresceram e as pessoas começaram a se fixar em grandes assentamentos com milhares de habitantes. E então, abruptamente, essas protocidades foram abandonadas por milênios. É um dos maiores mistérios dos primórdios da civilização humana.
O alvorecer da era da agricultura ocorre durante o "Neolítico", o período final da Idade da Pedra. Naquela época, há cerca de 12 mil anos, as pessoas já tinham desenvolvido ferramentas de pedra incrivelmente sofisticadas, armas e vasos de argila para cozinhar e armazenamento. E quando encontraram sementes que cresciam em plantas particularmente saborosas, levaram-nas durante suas caminhadas, plantando-as nos vales de rios em suas rotas, para que pudessem ter uma colheita dessas sementes no ano seguinte.
Quando estes cultivos informais ficaram um pouco maiores, começou a parecer menos vantajoso manter-se vagando quando havia tanta comida em um só lugar. Na região do Levante, ao longo do Mediterrâneo oriental, grupos nômades que outrora viviam da caça e coleta começaram a se estabelecer em pequenas aldeias em parte do ano.

Ascensão e queda das protocidades
À medida que essas pessoas aumentavam seus estoques de alimentos, as mulheres começaram a dar à luz a mais filhos. Grupos nômades de 20 ou 30 pessoas tornaram-se aldeias de 200. E algumas dessas aldeias, como Çatalhöyük na região central da atual Turquia, cresceram até alguns milhares de pessoas.
É difícil dizer o que, exatamente, Çatalhöyük era. Era uma cidade ou apenas algum tipo de aldeia bizarra, descomunal? Sabemos que perdurou por milênios, com milhares de pessoas ali vivendo continuamente a partir de cerca de 7500 AEC até 5700 AEC. Talvez possamos dizer que foi a coisa mais próxima de uma cidade no Neolítico, uma vez que muito mais pessoas viviam lá do que nas aldeias típicas próximas. Mas ela não tinha nenhuma das características que nós associamos às cidades grandiosas e com muralhas que surgiram milhares de anos mais tarde, no norte da África, na Ásia e no Oriente Médio.

   Imagem de Çatalhöyük por Dan Lewandowski. É importante lembrar que na vida real provavelmente muitos desses edifícios devem ter desabado e sido abandonados, usados como montes de entulhos. 

Não havia palácios, nem grandes zigurates ou pirâmides dedicadas aos deuses, e nenhum sinal de distinção de classes. Cada família tinha uma habitação pequena e ligeiramente retangular de um cômodo com uma lareira. Essas casas eram todas mais ou menos do mesmo tamanho. Não existiam ruas em Çatalhöyük – as casas eram erguidas uma ao lado da outra, similarmente a um favo de mel, e as pessoas caminhavam sobre os tetos das outras residências para chegar em casa, entrando através de portas em seus tetos. Embora houvesse arte, não havia escrita. E pouco havia no caminho que levasse ao trabalho especializado. Ao contrário da antiga Uruk ou de Mohenjo Daro, não havia manufaturas caseiras de adornos ou de produção de armas. As famílias viviam da caça, mas principalmente mantendo cultivos e pequenos rebanhos de animais como cabras nas colinas próximas.
Talvez Çatalhöyük não se parecesse muito com as cidades como as conhecemos, mas ela e outros grandes aglomerados eram as formas mais desenvolvidas de povoação em qualquer lugar do mundo naquela época. Eles foram os desenvolvimentos urbanos da sua época, abrigando grandes populações e promovendo o progresso tecnológico como cozinhar com produtos lácteos e fabricar cerâmica cozida (ambas eram grandes invenções de alta tecnologia no Neolítico).
Agora é que as coisas ficam estranhas. Em meados dos anos quinto milênio AEC, Çatalhöyük foi subitamente abandonada. A mesma coisa aconteceu com várias outras aldeias-cidades de grandes proporções no Levante. Suas populações se dispersaram, e as pessoas voltaram a viver nas pequenas aldeias por milhares de anos.
Ainda mais misterioso é o fato de haver um padrão semelhante - intensificação da agricultura, expansão da população, crescimento dos assentamentos e abandono - em outras partes do mundo. A agricultura chegou bem mais tarde à Europa Ocidental e à Inglaterra, de forma que este ciclo pode ser visto começando aproximadamente há 5.000 anos (em torno de 3000 AEC) em muitas regiões da Europa e na Inglaterra.
O que aconteceu?

O problema em se tornar sedentário
A vida sedentária pode ter significado mais alimentos e menos caminhadas, mas não foi fácil. Com uma grande população dependente de algumas poucas fontes locais de alimentos, os humanos tornaram-se vulneráveis como nunca foram enquanto nômades caçadores-coletores. Um período de clima desfavorável pode destruir toda a oferta de alimentos. E não é fácil se deslocar para outro lugar quando se tem uma população de 1.000 pessoas ou mais que estão acostumados à vida sedentária.
No Levante, uma mudança climática parece ser um culpado óbvio na desintegração das grandes aldeias-cidades. Çatalhöyük era cercada por rios perenes; hoje eles secaram.
Como o paleontólogo de Harvard Ofer Bar Josef defendeu na maior parte de sua carreira, parece certo que condições climáticas favoráveis permitiram que a agricultura florescesse no Levante. Mas no final do Neolítico, o clima se tornou mais frio e seco. Um lugar como Çatalhöyük já não podia mais se manter com as safras locais e a fome pode ter se tornado um grande problema. A dispersão em pequenas aldeias deu às pessoas uma chance de ter os confortos da vida sedentária sem a dependência de grandes safras para alimentar a todos.
Mas os arqueólogos que estudam as reduções populacionais na Europa sugerem outra explicação. O arqueólogo Stephen Shennan da University College London e sua equipe descobriram que não houve correlação entre as mudanças climáticas e a redução populacional na Europa. Eles sugerem que o que parece ser o abandono de grandes aglomerados populacionais pode na verdade ser reduções populacionais devido a doenças. Uma das principais desvantagens para a vida em um grande assentamento é que as doenças se espalham como fogo - especialmente supondo-se que as condições sanitárias eram mínimas. Na maioria das vezes, as pessoas despejavam seu lixo ao lado de suas casas.
Ainda assim, várias cidades sofreram com pragas e fome nos últimos milhares de anos – recuperando-se em seguida. Por que as pessoas abandonam os projetos das protocidades das grandes povoações neolíticas, sem nunca reconstruí-los novamente?
A agricultura é frequentemente chamada de "revolução neolítica". Então, o antropólogo Ian Kuijt da Universidade de Notre Dame chama esses colapsos de "fracasso da experiência neolítica". Ele descreve a expansão e abandono de uma mega-aldeia chamada Basta, localizada no que hoje é a Jordânia. Como Çatalhöyük, Basta se tornou maior do que outras aldeias ao seu redor. Para lidar com o crescimento populacional, as pessoas do Basta inventaram a arquitetura de dois andares, e começaram a subdividir seus espaços de convivência em cômodos cada vez menores. Muitas casas continham áreas especializadas para a convivência e para o armazenamento de alimentos.



Mas Kuijt não acredita que Basta foi abandonada porque sua população se tornou maior que seus recursos podiam sustentar. Em vez disso, sua população se tornou maior que os seus sistemas de crenças podiam suportar.

Velhas crenças e novas tecnologias
O problema é que as pessoas nas protocidades neolíticas herdaram um sistema de organização social e espiritualidade de seus ancestrais nômades. Como a vida nômade requer que todos no grupo compartilhem recursos para sobreviver, esses grupos desenvolveram rituais e costumes que reforçavam uma estrutura social bastante igualitária. Certamente houve famílias que tinham posições mais proeminentes em um grupo de caçadores-coletores ou numa pequena aldeia, mas se elas começassem a acumular recursos demais, isso seria ruim para todo o grupo. Então as pessoas desencorajariam fortemente umas às outras de exibições ostentosas de diferenças sociais.
Este conjunto de crenças pode ser visto refletido no ambiente construído de Çatalhöyük, onde todas as casas são mais ou menos do mesmo tamanho. Algumas casas têm algumas coisas a mais - mais peças de arte ou mais objetos rituais - mas como dito anteriormente, ninguém estava vivendo no equivalente Neolítico de uma mansão.
Tudo isso funciona muito bem em uma comunidade pequena, onde você conhece todos os seus vizinhos e apenas compartilha com pessoas cujas vidas são ligadas à sua (mesmo se você não gosta muito delas). Mas quando você tem milhares de pessoas vivendo juntas, é mais difícil ter uma estrutura social planificada. As pessoas precisam de representantes locais para representá-las; talvez até mesmo de um sistema de escrita para manter o controle de todos e do que possuem. Algumas pessoas começam a fazer tarefas especializadas, dando início à diferenciação social.
Mas a ideologia dessas pessoas nas protocidades neolíticas, Kuijt especula, deve ter tratado qualquer tipo de diferenciação social como um tabu. Assim que alguém conseguiu poder suficiente para ser um representante ou um protopolítico, outras pessoas tê-lo-iam afrontado. Kuijt acredita que importantes conflitos podem ter surgido desta tensão entre a crença na organização social planificada e a necessidade de se criar hierarquias sociais nas sociedades maiores. É uma hipótese intrigante, especialmente quando se considera que quando as cidades ressurgiram no quarto milênio AEC, elas tinham hierarquias sociais rígidas com reis, xamãs e escravos. Além disso, elas tinham a escrita, que então é usada fundamentalmente para listar onde cada pessoa vive e quais as suas posses ou bens.

  Reconstrução artística da antiga cidade de Uruk, com suas estruturas monumentais tornando a diferenciação social visível em sua arquitetura.  

É possível que o modelo de vida das protocidades não fosse sustentável porque era apoiado em sistemas de crenças que só poderiam existir em pequenas comunidades onde todos compartilhavam os recursos. Isso explicaria porque as pessoas abandonaram esses sítios, passando a viver em pequenas aldeias que nunca excediam cerca de 200 pessoas.
De certa forma, a agricultura foi uma tecnologia que chegou antes que a civilização humana estivesse pronta. Ela deu aos seres humanos os meios que possibilitaram grandes assentamentos e protocidades. Mas a humanidade havia vivido dezenas de milhares de anos como nômades antes disso, e ainda não estava pronta para abandonar suas antigas crenças de que nenhuma família deveria acumular mais do que seus vizinhos. Como resultado, nosso mais antigo experimento com o urbanismo terminou em fracasso. Quando as coisas ficaram difíceis, com colheitas insuficientes e doenças, os humanos preferiram abandonar as suas criações urbanas nascentes porque ainda não haviam desenvolvido uma estrutura social que permitisse lidar com as dificuldades da vida na cidade.

Foi por pouco. O mundo urbano como conhecemos hoje poderia não ter existido. Se a humanidade não tivesse chegado a um acordo com a revolução agrícola, é possível que os humanos nunca tivessem sido capazes de sustentar comunidades maiores do que uma aldeia.



segunda-feira, 4 de julho de 2011

As primeiras cidades: berços da civilização

Çatal Hüyük, Turquia.
Por volta de 7000 AEC, as técnicas de produção agrícola no Oriente Médio tinham alcançado um nível no qual era possível sustentar milhares de pessoas, muitas das quais não trabalhavam na agricultura, nos assentamentos densamente povoados. Duas dessas povoações mais antigas estavam em Jericó, no que hoje é a Cisjordânia ocupada por Israel, e em Çatal Hüyük, no sul da atual Turquia. Com populações de aproximadamente 2.000 e de 4.000 a 6.000 pessoas respectivamente, Jericó e Çatal Hüyük seriam vistas hoje como pouco mais que vilarejos grandes ou pequenas cidades. Mas, na perspectiva do desenvolvimento cultural humano, elas representaram os primeiros movimentos da vida urbana. Nestes e em outros assentamentos neolíticos do Oriente Médio, a especialização ocupacional e a formação de grupos de elite religiosos e político-militares avançaram significativamente. O comércio se tornou essencial para a sobrevivência da comunidade e era realizado, talvez por mercadores especializados, com pessoas a distâncias consideráveis. Artigos de cerâmica, de metal trabalhado e joias foram altamente desenvolvidos. Em Çatal Hüyük particularmente, esculturas e pinturas de parede foram feitas com alto nível de sofisticação.
Nestes dois antiquíssimos centros, os ingredientes principais de civilização se reuniram. Os excedentes agrícolas eram suficientes para sustentar produtores não agrícolas e líderes políticos e religiosos. A interação desses grupos resultou numa explosão de criatividade e inovação numa ampla variedade de campos. Mas estes primeiros centros estavam bastante isolados. Eles eram nada mais que pequenas ilhas de cultivadores sedentários e um pequeno número de habitantes urbanos, rodeados por vastas planícies e florestas. Os centros urbanos mais antigos parecem ter realizado comércio extensivamente, mas mantinham apenas contatos limitados e intermitentes como os povos caçadores-coletores vizinhos. Embora pequenas em tamanho e muito menos especializadas se comparadas com as cidades da Suméria e de outras civilizações antigas, não obstante desempenharam papéis decisivos na progressiva transformação neolítica. As elites governantes e os artesãos especialistas dessas cidades contribuíram de várias maneiras importantes para a introdução, no quarto milênio AEC, de invenções fundamentais – como a roda, o arado, a escrita e o uso do bronze – que asseguraram o futuro da vida civilizada como o padrão central da história humana.
Jericó – a proximidade do rio Jordão e as águas profundas e límpidas de uma nascente de oásis foram importantes para repetidos assentamentos humanos no lugar onde a cidade de Jericó foi construída. Por volta de 7000 AEC, mais de 10 acres no local estavam ocupados por casas redondas de feitas de barro e tijolo sobre fundações de pedra. A maioria destas casas antigas tinha apenas um cômodo com pisos de barro e teto em forma de cúpula, mas algumas casas tinham até três cômodos. A entrada destas residências sem janelas era feita por um portal único de madeira e degraus descendentes até o vão principal subterrâneo. Embora não haja evidências de que a cidade fosse fortificada nos primeiros estágios de seu crescimento, sua crescente riqueza tornou progressivamente imperativa a construção de muros de proteção contra inimigos externos. A cidade era rodeada por um canal escavado no solo rochoso e por um muro alcançando quase 3,7 metros de altura. A escavação extensiva necessária para esta construção é bastante impressionante porque as pessoas que as fizeram não dispunham de pás ou picaretas. As pedras para a muralha foram retiradas de um leito de rio a um quilômetro e meio de distância. Estas façanhas de transporte e construção sugerem não apenas uma força de trabalho de tamanho considerável, mas que também era bem organizada e disciplinada.
Quando Jericó foi reconstruída nos séculos seguintes, a muralha alcançou uma altura perto de 4,5 metros, e as fortificações incluíam uma torre de pedra de pelo menos 7,6 metros de altura. A área coberta pela cidade aumentou. As casas redondas deram lugar a casas retangulares, com entradas de madeira mais amplas e mais elaboradas. As casas eram construídas de tijolos aprimorados, possuíam lareiras de argamassa e moinhos de pedra para a moagem de grãos e eram mobiliadas com cestos de armazenamento e esteiras de palha. Além disso, pequenas construções que eram usadas como santuários religiosos foram encontradas em estágios posteriores da história da cidade.
Embora a economia de Jericó fosse baseada principalmente no cultivo de trigo e cevada, há evidências consideráveis de que a cidade também dependia da caça e do comércio. Cabras domesticadas forneciam carne e leite, enquanto gazelas e vários pássaros eram caçados pela carne, peles e penas. A cidade estava próxima de grandes reservas de sal, enxofre e piche. Estes materiais, que eram bastante demandados à época, eram permutados por pedras semipreciosas de obsidiana – rocha vulcânica vítrea escura – da Anatólia, turquesa do Sinai e conchas do mar Vermelho.
As ruínas escavadas em Jericó indicam que a cidade era governada por um grupo dominante distinto e bastante poderoso, que provavelmente era aliado dos guardiões dos centros de adoração. Provavelmente havia artesãos especializados e uma pequena classe mercantil. Além das estatuetas de fertilidade e dos animais entalhados encontrados em muitos outros sítios, os habitantes de Jericó esculpiam cabeças e figuras humanas de tamanho real altamente naturalísticas. Estas esculturas, que devem ter sido usadas em cultos ancestrais, dão-nos impressões realistas das características físicas das pessoas que desfrutavam da riqueza e da segurança de Jericó.
Çatal Hüyük – A primeira comunidade neste local no sul da Turquia foi edificada por volta de 7000 AEC, um pouco depois dos mais antigos assentamentos de Jericó. Mas a cidade que cresceu em Çatal Hüyük era bem mais extensa que Jericó e continha uma população maior e mais diversificada. Çatal Hüyük era na realidade o centro humano mais avançado do Neolítico. No auge de seu poder e prosperidade, a cidade ocupava 32 acres e mantinha cerca de 6.000 pessoas. Suas construções retangulares, que eram centros de vida familiar e interação comunitária, eram consideravelmente uniformes – feitas de tijolos de barro seco. Tinham janelas altas em suas paredes e as entradas eram buracos em seus tetos planos. Estas passagens também serviam como chaminés para as lareiras das casas. As casas eram unidas para prover fortificação à cidade. O movimento dentro do assentamento era feito principalmente através dos tetos e dos terraços das casas. Visto que cada residência tinha um grande depósito, quando a escada para o telhado era retirada, elas se tornavam fortalezas separadas dentro de um grande complexo.
A padronização das habitações e construções em Çatal Hüyük sugere um grupo governante até mais imponente que aquele encontrado em Jericó. Os muitos santuários religiosos encontrados no sítio também indicam a existência de uma classe sacerdotal poderosa. Os santuários eram construídos da mesma forma que as casas comuns, mas continham capelas rodeadas por quatro ou cinco salas relacionadas às cerimônias do culto. As paredes desses centros religiosos eram ornadas com pinturas de touros e comedores de carniça, principalmente abutres, sugerindo cultos de fertilidade e ritos associados com a morte. As estátuas que sobreviveram indicam que a deidade principal de Çatal Hüyük era uma deusa, que é de diversas maneiras retratada como uma mulher jovem dando à luz ou cuidando de uma criança pequena, e como uma mulher velha acompanhada por um abutre.
A importância óbvia dos santuários de culto e as elaboradas práticas de sepultamento das pessoas de Çatal Hüyük revelam o papel crescente da religião nas vidas dos povos neolíticos. As esculturas cuidadosamente entalhadas associadas aos santuários e as joias delicadas, espelhos e armas encontrados sepultados com os mortos atestam o alto nível de cultura material e capacidade artística alcançado pelos habitantes dessa cidade. As escavações do assentamento também revelam uma base econômica que era muito mais ampla e rica que a de Jericó. A caça ainda era realizada, mas as criações de cabras, ovelhas e bois amplamente ultrapassaram aquelas associadas a Jericó. Uma ampla variedade de alimentos era consumida pelos habitantes de Çatal Hüyük, que incluía vários, grãos, ervilhas, bagas, vinho de bagas e óleos vegetais feitos de nozes. O comércio era abrangente com as pessoas das montanhas dos arredores e de lugares tão distantes na atual Síria e na região do Mediterrâneo. Çatal Hüyük também era um centro importante de produção artesanal. Suas armas de sílex e de obsidiana, joalheria e espelhos de obsidiana estavam entre os melhores produzidos no período neolítico. Os vestígios da cultura da cidade deixam pouca dúvida de que os habitantes tinham alcançado um nível civilizado de existência.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Paranthropus

Os australopitecinos robustos, membros do extinto gênero hominíneo Paranthropus (do grego para “ao lado” e anthropos “humano”), eram hominídeos bipedais que provavelmente descendiam dos australopitecinos gráceis (Australopithecus).
Todas as espécies de Paranthropus até aqui descobertas eram bipedais, e muitas viveram numa época em que espécies do gênero Homo (que possivelmente também descendiam dos Australopithecus) eram prevalentes. O Paranthropus apareceu primeiramente conforme o registro fóssil há aproximadamente 2,7 milhões de anos. A maioria das espécies de Paranthropus tinha um cérebro com cerca de 40% do tamanho daqueles dos humanos modernos. Havia certa diferenciação entre as diferentes espécies de Paranthropus, mas a maioria media aproximadamente 1,3 metros de altura e eram bastante musculosos. Acredita-se que tenham vivido em áreas arborizadas em vez das savanas habitadas pelos Australopithecus.
O comportamento do Paranthropus era bastante diferente daqueles do gênero Homo, na medida em que não eram tão adaptáveis ao seu meio ambiente ou capazes de lidar com dificuldades. Evidências disso existem na forma de sua fisiologia, que era especificamente direcionada a uma dieta de raízes e plantas. Isto o teria tornado mais dependente de condições ambientais favoráveis que os membros do gênero Homo, como o Homo habilis, que aparentemente se alimentavam de uma maior variedade de comida. Então, devido à baixa capacidade adaptativa, os Paranthropus se extinguiram sem deixar descendentes.
Em 2011, Thure E. Cerling e equipe, da Universidade de Utah, publicaram um estudo baseado no carbono do esmalte de 24 dentes de 22 indivíduos Paranthropus que viveram na África oriental entre 1,4 e 1,9 milhões de anos. Um tipo de carbono é produzido a partir de folhas de árvores, nozes e frutas, e outro de gramas e plantas gramíneas chamadas caniços. Seus resultados revelaram que o Paranthropus boisei ao contrário das teorias prévias, não comia nozes, mas se alimentava muito mais pesadamente de gramíneas que qualquer outro ancestral ou parente humano estudado até agora. Apenas uma espécie extinta de babuíno comia mais grama. Um dos coautores deste artigo é Meave Leakey, nora de Mary e Louis Leakey.

O biólogo evolucionário Richard Dawkins observa que “talvez várias diferentes espécies” de hominídeos robustos, “assim como suas afinidades e seu número exato de espécies são ardentemente controversas. Os nomes que foram ligados a várias dessas criaturas são Australopithecus (ou Paranthropus) robustus, Australopithecus (ou Paranthropus ou Zinjanthropus) boisei e Australopithecus (ou Paranthropus) aethiopicus”. Opiniões diferem quanto a se as espécies P. aethiopicus, P. boisei e P. robustus deveriam ser incluídas dentro do gênero Australopithecus. O surgimento dos robustos poderia ser uma mostra de evolução convergente ou divergente. Não há atualmente consenso na comunidade científica se as espécies de P. aethiopicus, P. boisei e P. robustus deveriam ser colocadas num gênero distinto, Paranthropus, que se acredita tenha evoluído de uma linha ancestral australopitecina. Até a metade da década passada, a maioria da comunidade científica incluía todas as espécies de Australopithecus e Paranthropus em um só gênero. Atualmente, os dois sistemas taxonômicos são usados e aceitos na comunidade científica. No entanto, embora Australopithecus robustus e Paranthropus robustus sejam intercambiáveis para os mesmos espécimes, alguns pesquisadores, como Robert Broom e Bernard A. Wood, acreditam que há uma diferença entre Australopithecus e Paranthropus, e que estes deveriam ser dois gêneros distintos.

A maior parte das espécies Australopithecus (A. afarensis, A. africanus, e A. anamensis) desapareceu do registro fóssil antes do surgimento dos primeiros humanos e aparentemente elas (ou uma delas) devem ter sido ancestrais do Homo habilis, já o P. boisei e o P. aethiopicus continuaram a evoluir ao longo de um caminho separado e desvinculado dos primeiros humanos. Os Paranthropus compartilharam a Terra com alguns dos primeiros membros do gênero Homo, como o H. habilis, o H. ergaster e possivelmente até mesmo o H. erectus. O A. afarensis e o A. anamensis tinham, na maior parte, desaparecido nessa época. Havia também diferenças morfológicas significativas entre Australopithecus e Paranthropus, embora as diferenças encontradas estivessem em vestígios cranianos. Os vestígios pós-cranianos ainda eram muito similares. Os Paranthropus tinham crânios e dentes mais robustos e tendiam a ostentar cristas sagitais cranianas semelhantes às dos atuais gorilas que ancoravam músculos temporais massivos para mastigação.

As espécies de Paranthropus tinham caixas cranianas menores que as do Homo, mas que eram maiores que as dos Australopithecus. O gênero Paranthropus é associado a ferramentas de pedra no sul e no leste da África, embora haja considerável debate se elas foram feitas e utilizadas por estes australopitecinos robustos ou por seus contemporâneos do gênero Homo. A maior parte da comunidade científica acredita que os primeiros Homo eram os fabricantes de ferramentas, mas fósseis de mãos encontrados em Swartkrans, na África do Sul, indicam que a mão do Paranthropus robustus já estava também adaptada para agarrar com precisão e para o uso de ferramentas. A maioria das espécies de Paranthropus parece quase certamente não ser capaz do uso da linguagem ou de ter controlado o fogo, embora eles estejam diretamente associados a este último em Swartkrans.

Um crânio parcial e uma mandíbula de Paranthropus robustus foram descobertos em 1938 por um estudante, Gert Terblanche, em Kromdraai (70 km a sudoeste de Pretória) na África do Sul. Ele foi descrito como um novo gênero e espécie por Robert Broom do Museu Transvaal. O sítio tem sido escavado desde 1993 por Francis Thackeray também do Museu Transvaal. Esse primeiro fóssil foi datado em pelo menos 1,95 milhões de anos.
O Paranthropus boisei foi descoberto por Mary Leakey em 17 de julho de 1959, no sítio da garganta de Olduvai na Tanzânia. Ela estava trabalhando sozinha, porque Louis Leakey estava adoentado. Em suas notas, Louis registrou um primeiro nome, Titanohomo mirabilis, refletindo a sua impressão inicial de afinidade humana próxima. Louis e Mary passaram a chamá-lo de “Dear Boy”. Ele estava em um contexto com ferramentas olduvaienses e ossos de animais. A descrição do fóssil foi publicada na Nature de 15 de agosto de 1959. Nela Louis colocou o fóssil na família australopitecina, criando um novo gênero para ele, Zinjanthropus, espécie boisei. “Zinj” é uma antiga palavra árabe para a costa leste da África e “boisei” era uma referência a Charles Boise, um benfeitor antropológico dos Leakeys. Louis tinha considerado o gênero de Broom, Paranthropus, mas o rejeitou porque acreditava que Zinj fosse ancestral do gênero Homo, mas o fóssil descoberto na África do Sul não.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Linguagem e fabricação de ferramentas se desenvolveram juntas

O avanço evolucionário viu os humanos da idade da pedra dominarem a arte de fabricação de ferramentas manuais e pavimentou o caminho para a linguagem se desenvolver.
Pesquisadores dizem que os humanos primitivos estavam
limitados pelo cérebro e não pela habilidade manual
quando fabricavam ferramentas de pedra.
Fotografia: David Sillitoe/Guardian
Os humanos da idade da pedra dominaram a arte de fabricação de elegantes ferramentas manuais em um avanço evolucionário que estimulou potente cérebro e potencialmente pavimentou o caminho para a linguagem, segundo os pesquisadores.
O projeto de ferramentas de pedra se modificou radicalmente na pré-história humana, começando há mais de dois milhões de anos com lâminas afiadas mais primitivas, e culminando com machados de mão primorosa e perfeitamente afiados há 500.000 anos.
O desenvolvimento de ferramentas de pedra sofisticadas, incluindo objetos cortantes robustos e bordas de serra, é considerado um momento chave na evolução humana, porque ele prepara o terreno para uma melhor nutrição e comportamentos sociais avançados, tais como a divisão do trabalho e a caça em grupo.
“Tem havido uma grande discussão na comunidade arqueológica sobre porque levou tanto tempo para se fabricar ferramentas de pedra mais complexas. Nós simplesmente não tínhamos a habilidade manual, ou não éramos espertos o bastante para pensar em técnicas melhores?” Foi o que disse Aldo Faisal, neurocientista do Imperial College de Londres.
A equipe de Faisal investigou a complexidade dos movimentos da mão usados por um artesão experiente enquanto ele fazia réplicas de ferramentas de pedra simples e depois mais complexas. Bruce Bradley, arqueólogo da Universidade Exeter, usou uma luva com sensores eletrônicos adaptados enquanto lascava pedras para fazer uma lâmina afiada e depois um machado manual mais sofisticado.
Os resultados mostraram que os movimentos necessários para fazer uma machado manual não eram mais difíceis que aqueles usados para fazer uma lâmina de pedra primitiva, sugerindo que humanos primitivos estavam limitados pela potência do cérebro e não pela habilidade manual.
Os humanos primitivos estavam adaptados para fazer lâminas de pedra, mas estas eram tão finas que poderiam se quebrar enquanto estavam sendo usadas. Os movimentos necessários para fabricar ferramentas avançadas não eram mais difíceis, mas tinham de ser executados mais inteligentemente, para produzir uma ferramenta que tivesse um corpo espesso e robusto com uma borda cortante afiada.
As ferramentas de pedra mais antigas e simples, conhecidas como lâminas olduvaienses, foram descobertas junto com vestígios fossilizados de Homo habilis, um provável ancestral dos humanos modernos, na garganta de Olduvai, Tanzânia. Machados manuais feitos de pedra foram descobertos próximos a ossos de Homo erectus, a espécie ancestral humana que conduziu a migração para fora da África. Machados manuais são normalmente fabricados simetricamente em ambos os lados em forma de lágrima.
O mapeamento cerebral de fabricantes de ferramentas de pedra modernos mostram que áreas chave no hemisfério direito do cérebro se tornam mais ativas quando eles passam da fabricação de lâminas para a fabricação de ferramentas mais avançadas. Curiosamente, algumas dessas regiões cerebrais estão envolvidas no processamento da linguagem.
“O avanço de ferramentas de pedras brutas para elegantes machados manuais foi um grande salto tecnológico para nossos primitivos ancestrais humanos. Machados portáteis eram ferramentas mais úteis para defesa, caça e trabalhos de rotina”, disse Faisal, cujo estudo aparece no periódico PLoS ONE. “Nosso estudo reforça a ideia de que fabricação de ferramentas e linguagem se desenvolveram juntas porque ambas requeriam pensamentos mais complexos, fazendo do final do paleolítico inferior uma época central na nossa história. Após esse período, os humanos primitivos deixaram a África e começaram a colonizar outras partes do mundo”.

sábado, 11 de junho de 2011

Dedo fossilizado aponta para um grupo previamente desconhecido de parentes humanos

Os ‘denisovanos’ compartilharam a Ásia com Neandertais e humanos modernos há 30.000 anos. É o que mostra a análise de DNA do dedo.
Dente molar encontrado na caverna Denisova.
Fotografia: David Reich et al/Nature
Um pequeno dedo fossilizado descoberto numa caverna nas montanhas do sul da Sibéria pertenceu a uma jovem garota de um grupo desconhecido de humanos arcaicos, disseram os cientistas.
Acredita-se que os parentes humanos desconhecidos tenham habitado a maior parte da Ásia muito recentemente – há apenas 30.000 anos – e, dessa forma, dividiram o território com os primeiros humanos modernos e os Neandertais.
A descoberta pinta um quadro complexo da história humana no qual nossos ancestrais deixaram a África há 70.000 anos para encontrar outros parentes distantes, além dos troncudos Neandertais.
Os novos ancestrais foram denominados “denisovanos”, a partir do nome da caverna Denisova nos montes Altai do sul da Sibéria, onde o osso do dedo foi desenterrado em 2008. Os trabalhadores de campo escavando o sítio encontraram várias ferramentas de pedra e ossos que sugerem que a caverna foi ocupada por humanos primitivos por 125.000 anos.
Um grande dente molar, medindo em torno de 1,5 cm em cada lado e encontrado no sítio em 2000, também pertence a um indivíduo denisovano. O dente adulto era muito grande para pertencer a um humano moderno ou Neandertal, mas similar aos molares vistos nos mais primitivos Homo habilis e Homo erectus.
Pesquisadores liderados por Svante Pääbo do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva em Leipzig, Alemanha, realizaram testes genéticos no dedo fossilizado e descobriram que os denisovanos compartilharam um ancestral comum com os Neandertais.
A maior surpresa veio quando a equipe comparou o DNA dos denisovanos com o dos humanos modernos. Essa comparação revelou que os denisovanos tinham material genético em comum com populações modernas de Papua-Nova Guiné, devido ao intercruzamento com ancestrais dos melanésios. Anteriormente, o grupo de Pääbo havia divulgado evidências de intercruzamento entre Neandertais e os ancestrais dos não africanos vivos atualmente.
“O interessante é que no momento em que existiam Neandertais na Eurásia ocidental, havia esse outro grupo com uma história distinta que presumivelmente estava espalhado no leste da Ásia”, disse Pääbo ao Guardian. “Nós agora estamos começando a obter um quadro mais compreensivo deles. Nós queremos saber: quem era esse povo arcaico e o que os humanos modernos encontraram quando saíram da África?”
Pääbo decidiu não nomear o grupo como uma nova espécie humana para evitar disputas acadêmicas sobre se eles representam uma espécie separada ou não. “Até mesmo para Neandertais, onde temos mais resquícios que de qualquer outro grupo, os paleontólogos ainda podem não concordar se eles são uma espécie ou uma subespécie. É uma discussão acadêmica estéril porque nunca haverá uma definição e eu não quero entrar nela”, disse ele.
A ligação entre os denisovanos e os melanésios modernos foi completamente inesperada e mostra que os denisovanos devem ter vivido muito além da Sibéria, adicionou Pääbo. “Isto nos conta que humanos modernos tiveram bebês não apenas com Neandertais, mas também com denisovanos, e estas crianças foram incorporadas a grupos humanos ancestrais e contribuíram para a nossa existência atualmente. Isto é fascinante. Há dois grupos arcaicos que continuam a existir em nós hoje em dia e provavelmente mais”, disse Pääbo. O estudo foi divulgado na Nature.
Em março de 2010, os mesmos pesquisadores extraíram DNA mitocondrial do osso do dedo. As mitocôndrias são as usinas de força das células e contêm DNA que é passado apenas pela linha feminina. Estes testes deram as primeiras pistas de que o dedo vinha de um grupo de humanos desconhecido.
Richard Green, coautor do trabalho, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, disse: “A história agora fica um pouco mais complicada. Em vez da história ordenada que nós estávamos acostumados a ter de humanos modernos migrando para fora da África e substituindo os Neandertais, agora nós vemos estas linhas de história bastante entrelaçadas com muito mais atores e mais interações do que sabíamos antes”.
Os paleontólogos aguardam por escavações futuras na caverna Denisova para recuperar mais vestígios fósseis dos denisovanos. Alguns fósseis talvez já sejam observados despercebidamente em coleções de museus ao redor do mundo.
“Há muitos fósseis disponíveis que são enigmáticos. Ninguém realmente sabe o que eles são. Pode ser que muitos deles sejam de denisovanos, mas o único jeito de saber seria extrair DNA desses fósseis, mostrar que eles estão relacionados ou foram escavados na caverna Denisova e achar mais ossos de forma que possamos compará-los com outros fósseis. Os denisovanos talvez não sejam tão desconhecidos como pensamos”, disse Pääbo.
(A partir de texto da Science)

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Ferramentas de pedra descobertas na Arábia forçam os arqueólogos a repensar a história humana

As ferramentas encontradas no sul da Arábia datam de 125.000 anos atrás - 55.000 anos antes do que se pensava quanto aos humanos terem saído da África.
Machados manuais de pedra pertencentes a humanos que
viveram na Arábia há mais de 100.000 anos.
Fotografia: AAAS/Science/PA

Um conjunto espetacular de ferramentas de pedra descobertas embaixo de um abrigo de rocha desmoronado no sul da Arábia obrigou a uma importante reflexão da história da migração humana para fora da África. A coleção de machados manuais e outras ferramentas modeladas para cortar, furar e lixar trazem a marca das primeiras manufaturas humanas, mas datam de 125.000 anos atrás, cerca de 55.000 anos antes do que se acreditava nossos ancestrais terem deixado o continente.
Os artefatos, descobertos nos Emirados Árabes Unidos, apontam para uma dispersão muito anterior dos antigos humanos, que provavelmente tomaram um atalho partindo do Chifre da África para a península Arábica cruzando um canal raso no mar Vermelho que se tornou transitável no final de uma idade do gelo. Um vez estabelecidos, estes pioneiros devem ter prosseguido através do golfo Pérsico, talvez alcançando a Índia, a Indonésia e até mesmo a Austrália.
Michael Petraglia, arqueólogo da Universidade de Oxford, que não esteve envolvido no trabalho, disse à revista Science: "isto é realmente espetacular. Destrói o apoio da atual visão de consenso".
Os humanos anatomicamente modernos - aqueles semelhantes às pessoas vivas atualmente - evoluíram na África há cerca de 200.000 anos. Até agora, a maior parte da evidência arqueológica tem apoiado um êxodo a partir da África ou várias ondas de migrações, ao longo da costa mediterrânea ou do litoral árabe entre 80.000 e 60.000 anos atrás.
Uma equipe liderada por Hans-Peter Uerpmann da Universidade de Tübingen na Alemanha descobriu as mais antigas ferramentas de pedra enquanto escavavam sedimentos na base de uma protuberância desmoronada localizada numa montanha calcária chamada Jebel Faya, localizada a cerca de 55 km do litoral do golfo Pérsico. Escavações anteriores no sítio tinha encontrado artefatos da dos períodos do ferro, bronze e neolítico, evidência de que a formação rochosa forneceu milênios de abrigo natural para os humanos.
O grupo de ferramentas inclui pequenos machados manuais e lâminas bilaterais que são consideravelmente similares àquelas fabricadas pelos primeiros humanos no leste da África. Os ppesquisadores temporariamente rejeitaram a possibilidade de outros hominíneos terem feito as ferramentas, tais como os neandertais que já ocupavam a Europa e norte da Ásia, mas que não estavam na Arábia na época.
As pedras, uma forma de rocha rica em sílica chamada sílex córneo, foram datadas por Simon Armitage, um pesquisador da Royal Holloway, da Universidade de Londres, usando uma técnica que mede até onde os grãos de areia em volta dos artefatos foram queimados. Outra parte do trabalho dos arqueólogos, descrito na Science, concentrou-se nos registros de mudanças climáticas e no histórico do nível do mar na região. Eles mostram que, entre 200.000 e 130.000 anos atrás, uma idade do gelo global causou quedas nos níveis dos mares em até 100 metros, enquanto os desertos do Saara e da Arábia se expandiram em regiões vastas, desoladas e inóspitas.
Mas à medida que o clima esquentou no final da idade do gelo, chuvas refrescantes caíam sobre a Arábia, tornando a região acessível à ocupação humana. " O interior antes árido da Arábia teria sido tranformado em uma paisagem amplamente coberta de savanas, com sistemas de abrangentes de rios e lagos", disse Adrian Parker, pesquisador da Universidade Oxford Brookes e coautor do artigo.
A revitalização da Arábia coincidiu com registros de baixos níveis do mar, que deixou apenas uma faixa rasa de água de cerca de cinco quilômetros no estreito de Bab al Mandab que separa o leste da África da península Arábica. Uerpmann disse qie os primeiros humanos caminhado ou atravessado com dificuldade, mas acrescentou: "Eles poderiam ter usado jangadas ou canoas, que eles certamente poderiam fazer na época".
Os recém-chegados teriam encontrado bons campos de caça no final de sua jornada, abundante em asnos selvagens, gazelas e cabritos monteses, disse Uerpmann.
A descoberta estimulou o debate entre os arqueólogos, alguns dos quais dizem que é preciso evidências mais fortes para das suporte às afirmações dos perquisadores. "Eu não estou totalmente convencido", disse à Science o arqueólogo da Universidade de Cambridge, Paul Mellars. "Não há aqui um pedaço de evidência de que estas ferramentas tenham sido feitas por humanos modernos, nem que eles tenham vindo da África".
Chris Stringer, paleontólogo do Museu de História Natural de Londres, disse: "A região da Arábia tem sido terra incognita na tentativa de mapear a dispersão dos humanos modernos a partir da África durante os últimos 120.000 anos, levando a muita teorização frente a poucos dados".
"Apesar da desconcertante falta de diagnóstico da evidência fóssil, este trabalho fornece sinais importantes de que os primeiros humanos modernos talvez tenham se dispersado a partir da África através da Arábia, até o estreito de Ormuz, há 120.000 anos".

(Fonte: Science)

terça-feira, 7 de junho de 2011

Ossos descobertos empurram para o passado em mais 1 milhão de anos data para o primeiro uso de ferramentas de pedra

Os ossos foram encontrados próximos ao sítio de "Lucy", provável ancestral humana, que viveu há 3,2 milhões de anos.


Marcas em ossos animais sugerem que os ancestrais humanos usavam pedras para cortar carne Há 3,4 milhões de anos. Fotografia: Dikka Research Project/PA

Os ancestrais dos primeiros humanos usavam ferramentas de pedra para remover a carne de carcaças animais aproximadamente 1 milhão de anos antes do que se pensava.
Os arqueólogos revisaram a data depois de identificar cortes distintivos e marcas de esmagamento feitos por ferramentas de pedra em ossos de animais datando de 3,4 milhões de anos.
Os restos, incluindo uma costela de uma criatura semelhante a uma vaca e um osso da coxa de um animal do tamanho de uma cabra, foram recuperados de sedimentos do leito de um rio em Dikka, na região de Afar no norte da Etiópia durante uma expedição realizada em janeiro de 2010.
As marcas mostram onde as ferramentas de pedra foram usadas para cortar e raspar a carne das carcaças e onde os ossos foram esmagados para expor a nutritiva medula interna.
A descoberta sugere que a carne estava no menu a muito tempo em nossa história evolucionária, muito tempo antes do surgimento da primeira espécie humana, o Homo habilis, 2,3 milhões de anos atrás.
"Nós estavamos apenas caminhando quando descobrimos os dois ossos", disse Shannon McPherron, arqueóloga do Instituto Max Planck para Antropologia Evolucionária em Leipzig. "Nós erguemos o fragmento de costela e sobre ele havia estas duas marcas. Logo depois, encontramos o segundo osso, também com um monte de marcas. Imediatamente soubemos que tinhamos encontrado algo potencialmente importante".
Até agora, a evidência mais antiga do uso de ferramentas de pedras era um grupo de mais de 2.600 lascas de pedra com idade estimada em 2,5 milhões que foi desoberto em outra parte da Etiópia em 1997. Estas ferramentas foram lascadas para fazer lâminas de corte afiadas, mas em Dikka, as pedras foram provavelmente usadas da forma que foram encontradas.
Os ossos descarnados foram descobertos próximos a onde o esqueleto de um provável ancestral humano, chamado Lucy, foi encontrado. Lucy pertencia à espécie chamada Australopithecus afarensis e viveu na região há aproximadamente 3,2 milhões de anos. Na época, a região era quente e úmida, com pedaços de savanas e áreas altamente florestadas povoadas com formas primitivas de girafas, macacos, elefantes e rinocerontes.
"Agora quando nós imaginarmos Lucy caminhando na paisagem africana oriental procurando por comida, nós podemos pela primeira vez vê-la com uma ferramenta de pedra na mão buscando por alimento", disse McPherron. O esqueleto de outra fêmea ainda criança, Selam, foi encontrado há 320 quilômetros dali.
A análise detalhada das marcas de corte sobre os ossos mostra que elas diferem substancialmente das marcas de dentes e garras que podem ser deixadas por predadores. Uma das marcas foi feita com um pequeno fragmento de pedra, de acordo com a Nature.
O uso de ferramentas de pedra simples para remover carne e tutano marca um momento crucial na história humana. À medida que os ancestrais dos primeiros humanos se voltavam para a carne como alimento, eles se habilitavam a ter cérebros maiores os quais por sua vez possibilitavam-lhes fazer ferramentas mais sofisticadas.
"Estes ossos talvez nos mostre o começo desse processo", disse Chris Stringer, chefe da área de origens humanas do Museu de História Natural de Londres.
"O que nós precisamos desses sítios agora são evidências das próprias ferramentas de pedra, de forma que nós possamos ver se elas foram manufaturadas ou eram pedras naturais que por acaso foram usadas para o desossamento da carne", complementou Stringer.
Lucy e outros de sua espécie provavelmente carregavam ferramentas de pedra naturais com eles para usar quando encontrassem um animal morto. "Não é uma coisa trivial deixar as árvores para trás, vaguear por essa paisagem aberta e começar a remover carne e tutano de uma carcaça. Estas mesmas carcaças atraíam carnívoros que viam estes primeiros hominíneos como comida,que dessa forma estavam encarando um grande risco", disse McPherron.
(Texto a partir da Science)