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quinta-feira, 30 de junho de 2011

Religião canaanita

As tribos israelitas durante o período de condução e liderança principalmente de Moisés e Josué tiveram que lutar contra tribos nômades; em seus contatos com estes grupos, elas absorveram algumas das atitudes e motivos do estilo de vida nômade, tais como independência, amor pela liberdade de se mover sem destino, e o medo ou desdém pelo estilo de vida sedentário, agrícola e dos povos urbanos.

Já os canaanitas, com quem os israelitas entraram em contato durante a conquista por Josué e o período dos juízes, eram um povo urbano e agrícola sofisticado. O nome Canaã significa “País da Púrpura” (a tinta púrpura era extraída de um molusco encontrado no litoral da Palestina). Os canaanitas, um povo que absorveu e assimilou as características de muitas culturas do antigo Oriente Próximo por pelo menos 500 anos antes dos israelitas entraram na sua área de controle, eram um povo que, até onde se sabe, inventou a forma de escrever que se tornou o alfabeto, que, através de gregos e romanos, foi transmitida a muitas culturas influenciadas pelos seus sucessores – especialmente, as nações e povos da civilização ocidental.

A religião dos canaanitas era uma religião agrícola, com motivos de fertilidade pronunciados. Suas divindades principais eram chamadas Baalim (Senhores), e suas consortes Baalot (Senhoras) ou Asherah (singular), normalmente conhecidas pelo nome pessoal no plural Ashtoret. O deus de Siquém, cidade que os israelitas absorveram pacificamente sob Josué, era chamado de Baal-berith (Senhor da Aliança) ou El-berith (Deus da Aliança). Siquém se tornou o primeiro centro da confederação tribal religiosa (chamado de anfictiônia pelos gregos) dos israelitas durante o período dos juízes. Quando Siquém foi escavada no começo da década de 1960, o templo de Baal-berith foi parcialmente reconstruído; o pilar sagrado (geralmente um símbolo fálico ou, muitas vezes, uma representação de Asherah, o símbolo da fertilidade feminina), foi colocado na sua posição original diante da entrada do templo.
Acreditava-se que os Baalim e as Baalot, deuses e deusas da Terra, revitalizavam as forças da natureza das quais a agricultura dependia. O processo de revitalização envolvia um casamento sagrado (hieros gamos), repleto de atividades sexuais simbólicas e reais entre homens, representando os Baalim, e as prostitutas sagradas do templo (quedeshot), representando as Baalot. As cerimônias rituais envolvendo atos sexuais entre membros masculinos das comunidades agrícolas e as prostitutas sagradas dedicadas às Baalim eram focadas no conceito canaanita de magia favorável. Como as Baalim (através das ações de homens selecionados) tanto simbólica quanto de fato fecundavam as prostitutas sagradas, então também, acreditava-se, as Baalim (como deusas das condições atmosféricas e da Terra) enviariam as chuvas (frequentemente identificadas com o sêmen) à Terra de forma que elas pudessem render safras abundantes de grãos e frutos. Histórias lendárias canaanitas incorporando tais mitos de fertilidade estão representadas nos textos mitológicos da antiga cidade de Ugarit (a moderna Ras Shamra) no norte da Síria; embora o deus supremo El e sua consorte fossem importantes como o primeiro casal do panteão, Baal e sua esposa-irmã sexualmente apaixonada eram importantes na criação do mundo e na renovação da natureza.
A religião dos agricultores canaanitas mostrou ser uma forte atração para as tribos israelitas nômades menos sofisticadas. Muitos israelitas sucumbiram às seduções dos rituais e práticas carregados de fertilidade da religião canaanita, parcialmente porque era nova e diferente da religião de Javé e, possivelmente, por causa da tendência da fé rigorosa e da ética enfraquecerem sob a influência de atrações sexuais. À medida que os canaanitas e os israelitas começaram a viver em contato próximo entre si, a fé de Israel tendeu a absorver alguns dos conceitos e práticas de religião canaanita. Alguns israelitas começaram a dar nomes a suas crianças homenageando os Baalim; até mesmo um dos juízes, Gideão, também era conhecido pelo nome Jerubbaal (“Deixe Baal Lutar”).
À medida que as tendências sincréticas se tornaram profundamente estabelecidas na fé israelita, o povo começou a perder o conceito de sua exclusividade e de sua missão de ser testemunha das nações, tornando-se enfraquecido em resoluções internas e responsável pela opressão de outros povos.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

As construções do imperador romano Adriano capturavam o Sol

A propriedade de campo do imperador estava alinhada para receber os solstícios.
No solstício, o sol brilha no edifício Roccabruna (esquerda),
iluminando a parede oposta (direita).
Fotografias: Marina De Franceschini
A vila de Adriano a 30 quilômetros a leste de Roma era o lugar onde o imperador poderia relaxar em banhos de mármore e esquecer as aflições do poder. Mas ele não podia nunca perder completamente a linha do tempo, afirma Marina De Franceschini, arqueóloga italiana que acredita que alguns dos edifícios da vila estão alinhados de forma que produzam efeitos da luz do sol nas estações.
Por séculos, os acadêmicos têm acreditado que os mais de 30 edifícios na propriedade palaciana campestre de Adriano estavam orientados mais ou menos ao acaso. Mas De Franceschini afirma que durante o solstício de verão, lâminas de luz penetram dois dos edifícios da vila.
Em um, o Roccabruna, a luz do solstício de verão entra através de uma abertura em forma de cunha acima da porta e ilumina um nicho no lado oposto do interior (veja a imagem acima). E em um templo do edifício Accademia, De Franceschini observou que a luz do sol passa através de uma série de portas durante os solstícios de inverno e verão.
“Os alinhamentos me deram uma nova chave de interpretação”, disse De Franceschini, que afirma que os dois edifícios são conectados por uma esplanada que era uma avenida sagrada durante os solstícios. Baseada em textos antigos descrevendo rituais religiosos e no estudo de esculturas recuperadas, ela acredita que os efeitos de luz estavam ligados a cerimônias religiosas associadas à deusa egípcia Isis, que fora adotada pelos romanos.
De Franceschini, que trabalha com a Universidade de Trento na Itália, publicará um livro nos próximos meses descrevendo o trabalho astronômico-arqueológico. Ela dá crédito a dois arquitetos, Robert Mangurian e Mary-Ann Ray, por inicialmente observar o efeito luminoso em Roccabruna.
Robert Hannah, um classicista da Universidade de Otago na Nova Zelândia, afirma que as ideias de De Franceschini são plausíveis. “Elas certamente estão prontas para futuras investigações”, disse ele.
Hannah, que atualmente está buscando identificar alinhamentos associados com ascensão de estrelas em templos gregos em Chipre, acredita que o Panteão, um grande templo em Roma com uma janela circular no topo de seu domo, também age como um relógio solar de calendário gigante, com a luz do sul iluminando superfícies interiores importantes nos equinócios e em 21 de abril, o dia do aniversário da cidade.
Poucos edifícios clássicos foram investigados quanto a alinhamentos astronômicos, disse Hannah, parcialmente porque é mais fácil verificar alinhamentos em estruturas pré-históricas como Stonehenge, que não tem artefatos potencialmente contraditórios.
Jarita Holbrook, astrônoma cultural da Universidade do Arizona em Tucson, EUA, também não está surpresa com os alinhamentos solares da vila de Adriano. Eles são “uma parte comum da maioria das culturas”, disse ela. Mas, acrescenta, também é fácil construir edifícios coincidentemente alinhados com características astronômicas.
De Franceschini planeja passar a semana do próximo solstício de verão na vila de Adriano, na esperança de documentar os efeitos de luz no templo de Apolo mais cuidadosamente. O solstício de verão do ano passado foi chuvoso, disse ela. “Espero que esse ano consigamos fotos melhores”.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Sudário de Turim: o trabalho de um artista do Renascimento?

O historiador de arte italiano Luciano Buso tem uma nova e original teoria sobre o Sudário de Turim, o controverso tecido de pouco mais de quatro metros de comprimento no qual algumas pessoas acreditam que Jesus Cristo foi envolto ao ser sepultado. Ao invés de considerar a surrada relíquia de linho – que talvez esteja entre os artefatos mais estudados no mundo – como uma fraude, ele sugeriu em recentes entrevistas e em um livro que uma versão autêntica realmente existiu em algum momento da história. Contudo, passados 1.300 anos, ele se desintegrou tanto que a Igreja Católica pediu ao famoso pintor renascentista Giotto di Bondone para criar uma réplica exata, de acordo com a hipótese de Buso. O original, nesse ínterim, ou se esfarelou, ou foi perdido ou queimado.
Por séculos, cientistas e historiadores se dedicaram ao misterioso Sudário de Turim, uma peça de linho manchada de sangue que exibe o esboço desbotado de um homem crucificado, esperando decifrar o que a imagem representa e como ela foi criada. A primeira referência documentada da relíquia data do século XIV, e registros históricos sugerem que ela mudou de mãos muitas vezes até 1578, quando chegou à sua atual residência na catedral de São João Batista em Turim, Itália. Enquanto a Igreja Católica nunca tomou uma posição oficial sobre a autenticidade do tecido, o Vaticano produziu relatos atestando seu valor e organizou várias exibições públicas, a mais recente na primavera (outono no Brasil) de 2010.
O advento da fotografia no final do século XIX alterou para sempre o curso da história do sudário. Em 1898, um advogado chamado Secondo Pio tirou a primeira fotografia conhecida do pano, e o seu negativo revelou novos detalhes, incluindo impressionantes traços do rosto claramente visíveis. O interesse científico na relíquia iniciou-se imediatamente. Em 1902, o anatomista francês Yves Delage, um agnóstico, inspecionou as fotografias e declarou que a figura no sudário era realmente Jesus Cristo. As primeiras análises diretas do tecido foram conduzidas na década de 1970, mais notoriamente pelo Projeto de Pesquisa do Sudário de Turim, uma equipe de cientistas liderada pelo físico John P. Jackson da Universidade do Colorado. O grupo descobriu que as marcas no tecido eram consistentes com um corpo crucificado e que as manchas eram de sangue humano verdadeiro; eles também sugeriram que os padrões sombreados da imagem continham informação tridimensional. Contudo, eles não puderam explicar como a impressão foi feita sobre o tecido.
Em 1988, os cientistas removeram um pedaço do sudário para testes de radiocarbono. Três laboratórios independentes concluíram que o material se originou entre 1260 e 1390, levando alguns a considerá-lo não autêntico. Desde então, todavia, estudos posteriores colocaram estas descobertas em questão, sugerindo que os pesquisadores inadvertidamente testaram material que foi enxertado sobre o sudário original durante reparos feitos na Idade Média. Outras análises, muitas das quais mostraram resultados controversos e conflitantes, concentraram-se na origem geográfica de traços de pólen e partículas de sujeira detectados no tecido.
Buso não é o primeiro especialista a teorizar que o sudário pode ter sido o trabalho de um artista. Em maio de 2010, por exemplo, o cientista americano Gregory S. Paul publicou um estudo alegando que o esboço da cabeça menor do que o normal e comprimentos dos braços desiguais eram inconsistentes com proporções saudáveis de um humano moderno. Ele lançou a hipótese de que um artista amador gótico com poucos conhecimentos anatômicos tinha pintado o tecido e o transmitiu como uma relíquia genuína. Em 2009, a artista americana Lillian Schwartz declarou que Leonardo da Vinci tinha intencionalmente falsificado o Sudário de Turim para iludir seus contemporâneos, usando primitivas técnicas de fotografia e uma escultura de seu próprio rosto para produzir a misteriosa imagem.

"Beijo de Judas", afresco de Giotto
na Cappella degli Scrovegni em
Pádua, Itália.
Buso acredita que Giotto, um mestre da pintura mais conhecido por decorar a elaborada Cappella degli Scrovegni em Pádua, Itália, nunca intencionou enganar os crentes e até mesmo usou o sudário real do sepultamento de Jesus como seu modelo. Ele alega ter detectado a assinatura do artista e vários desenhos enfraquecidos do número 15 – uma referência, em seu ponto de vista, ao ano que Giotto criou a réplica – escondidas nas mãos e na face da figura. “(Giotto) não estava tentando falsificar nada, o que está claro por ele ter assinado... para autenticar como um trabalho seu de 1315”, disse Buso ao Daily Mail.


Investigações anteriores falharam em desvelar as várias marcas de Giotto no tecido porque elas foram feitas com padrões de pinceladas ocultas quase invisíveis a olho nu, Disse Buso. Ele também apontou que sua teoria coloca a origem do artefato diretamente dentro da janela de tempo indicada pelas análises de radiocarbono de 1988. A hipótese de Buso foi recebida com crítica, inclusive por Bruno Barberis, diretor do Museu do Santo Sudário de Turim. Um fiel determinado da autenticidade do artefato, Barberis disse ao Daily Telegraph que testes físicos e químicos já comprovaram que o sudário não é uma pintura.